Luanda, 21 de Março de 2026 – O Padre Augusto Malengue afirmou este Sábado que a compreensão da Igreja Católica e da sua hierarquia é indispensável para uma cobertura rigorosa e responsável da missão apostólica de Sua Santidade o Papa Leão XIV a Angola. O Sacerdote, mestre em Teologia Dogmática pela Universidade de Burgos, em Espanha, onde actualmente se encontra a concluir o seu doutoramento, defendeu que os jornalistas devem conhecer a natureza, a organização e o funcionamento interno da Igreja para evitarem leituras simplistas ou equivalências erradas entre diferentes denominações cristãs.
A intervenção teve lugar no segundo dia da formação de jornalistas sobre a cobertura da visita papal, integrada no Jubileu dos Jornalistas, sob o tema “A Igreja Católica e a sua hierarquia”.
Uma formação para ajudar a compreender melhor a Igreja
No início da sua exposição, o padre Augusto Malengue disse que o contexto actual, exige precisão e clareza, sobretudo numa época em que o pluralismo religioso leva muitas pessoas a perguntarem já não apenas “onde está a Igreja”, mas “qual delas”.
Segundo o prelector, esta realidade torna ainda mais importante distinguir correctamente a identidade própria da Igreja Católica, a sua estrutura e o significado da sua hierarquia.
“Falar da Igreja Católica e da sua hierarquia é deveras importante, porque isto ajudar-nos-á a distinguir as igrejas e a evitar estabelecer equivalências equivocadas entre elas”, afirmou.
A Igreja não se reduz a uma definição simples
O Padre Augusto Malengue explicou que a Igreja não se deixa encerrar facilmente numa definição rígida, porque é uma realidade espiritual e histórica muito mais ampla do que qualquer fórmula resumida.
Por isso, ao longo dos séculos, a reflexão teológica preferiu recorrer a imagens que ajudam a compreender diferentes dimensões da Igreja, entre as quais:
- Igreja mistério ou sacramento;
- Igreja comunhão;
- Igreja povo de Deus;
- Igreja corpo de Cristo;
- Igreja templo do Espírito Santo.
A partir desta abordagem, o sacerdote frisou que a Igreja é, antes de tudo, uma realidade de comunhão fundada por Deus, reunida por Cristo e vivificada pelo Espírito Santo.
“A Igreja somos todos os baptizados”
Um dos pontos centrais da conferência foi a explicação de que a Igreja não é apenas o clero, nem apenas a instituição visível, mas a comunidade dos baptizados.
“Mais do que perguntar o que é a Igreja, vamos perguntar: quem somos a Igreja? E a resposta será: a Igreja somos todos os baptizados”, declarou.
Neste sentido, explicou que a Igreja integra todos os fiéis que receberam o Baptismo, embora nem todos exerçam a mesma missão ou responsabilidade dentro dela.
Esta perspectiva foi retomada mais tarde por Dom António Francisco Jaca, que reforçou a mesma ideia ao recordar que a porta de entrada na Igreja é precisamente o Baptismo.
A sinodalidade como caminho de comunhão
Na sua exposição, o Padre Malengue destacou também a importância da sinodalidade, entendida como o caminhar conjunto da Igreja.
Segundo explicou, a sinodalidade significa:
- escutar uns aos outros;
- discernir juntos;
- procurar, em conjunto, a vontade de Deus;
- decidir em comunhão.
Trata-se, disse, de um princípio profundamente ligado à vida da Igreja no presente e ao caminho que o Papa Francisco apontou para a Igreja do terceiro milénio.
O conferencista apresentou igualmente as quatro notas clássicas da Igreja:
- una,
- santa,
- católica,
- apostólica.
Ao deter-se particularmente sobre a nota da catolicidade, explicou que o termo “católica” significa universalidade, totalidade e plenitude, indicando que a Igreja está aberta a todos os povos, conserva a totalidade da fé e participa na missão universal recebida de Cristo.
O sacerdote recordou que, historicamente, o termo serviu também para identificar a grande Igreja, em oposição às seitas e correntes heréticas surgidas ao longo dos séculos.



A Igreja Católica tem uma estrutura própria
Ao abordar a hierarquia eclesial, o Padre Augusto Malengue esclareceu que a Igreja Católica “não é uma massa amorfa”, mas uma comunidade organizada, com uma estrutura própria destinada ao serviço do povo de Deus.
Explicou que, na hierarquia da Igreja, existem três graus fundamentais do sacramento da Ordem:
- bispos,
- presbíteros (padres),
- diáconos.
O bispo ocupa o grau superior, por possuir a plenitude do sacramento da Ordem. Os presbíteros cooperam com ele no governo pastoral e os diáconos exercem um ministério próprio de serviço da Palavra e da caridade.
O sacerdote sublinhou ainda que esta hierarquia não coloca os ministros ordenados acima da Igreja, mas dentro dela, como membros com responsabilidades acrescidas.
“O padre, o bispo ou o diácono não se situam nem à margem, nem acima da Igreja. São membros da Igreja com responsabilidades redobradas”, explicou.
Bispo, arcebispo e cardeal: distinções importantes
Na sessão de perguntas e respostas, vários jornalistas solicitaram esclarecimentos sobre a diferença entre bispo, arcebispo e cardeal.
O Padre Malengue explicou que:
- o bispo é o grau superior da hierarquia sacramental;
- o arcebispo continua a ser bispo, mas preside a uma arquidiocese e exerce determinadas funções de coordenação sobre dioceses sufragâneas;
- o cardeal também é, em regra, bispo, mas recebe uma dignidade especial e passa a colaborar mais directamente com o Papa, sobretudo em matérias de governo da Igreja universal e na eleição do Romano Pontífice.
Dom António Francisco Jaca acrescentou que o cardinalato não constitui um grau sacramental diferente, mas antes uma dignidade e uma função específica ao serviço da Igreja universal.
O lugar das congregações religiosas e das madres
Outra questão levantada durante o debate incidiu sobre o lugar das congregações religiosas e das madres na organização da Igreja.
O Padre Augusto Malengue esclareceu que as religiosas não integram a hierarquia eclesiástica, a qual é constituída pelos ministros ordenados. Todavia, desempenham um papel muito importante na missão da Igreja, enquanto pessoas consagradas ao serviço de Deus e do próximo.
Dom António Francisco Jaca complementou esta explicação, lembrando que os religiosos e religiosas pertencem ao povo de Deus e vivem uma vocação própria, baseada na consagração e no seguimento de Cristo segundo carismas específicos.
Quem é o Papa e qual é a sua missão
Ao tratar do Papa, o Padre Malengue explicou que o Romano Pontífice é:
- Bispo de Roma;
- Sucessor do Apóstolo Pedro;
- Pastor Supremo da Igreja;
- cabeça visível da Igreja universal.
Segundo afirmou, o Papa não é uma figura meramente honorífica nem o resultado de circunstâncias históricas ocasionais, mas parte constitutiva da vida da Igreja, por vontade do próprio Cristo.
“O Papa forma parte do ser da Igreja por vontade divina”, afirmou.
O sacerdote explicou ainda que o ministério do Papa está ligado ao ministério confiado por Jesus a São Pedro, sendo, por isso, centro de unidade e comunhão eclesial.
Ao longo da história, o Papa recebeu várias designações, entre as quais:
- Papa,
- Bispo de Roma,
- Sucessor de Pedro,
- Vigário de Cristo,
- Santo Padre,
- Sumo Pontífice.
Entre estas, frisou, hoje as mais teologicamente significativas são: Papa, Sucessor de Pedro, Bispo de Roma, Pastor Supremo da Igreja e Santo Padre.
A Santa Sé e a unidade da Igreja
Questionado sobre o papel do Vaticano e da Santa Sé nas decisões da Igreja, o conferencista explicou que a intervenção da Sé Apostólica resulta da longa experiência histórica da Igreja e da necessidade de garantir unidade, comunhão e disciplina.
Dom António Francisco Jaca aprofundou este ponto, referindo que a organização da Igreja foi-se consolidando precisamente para evitar excessos, arbitrariedades e rupturas na comunhão, sublinhando que o Papa exerce um serviço de governo universal em articulação com os bispos e com os organismos da Santa Sé.
Um contributo importante para a cobertura da visita papal
A conferência do Padre Augusto Malengue foi amplamente valorizada pelos participantes, que consideraram particularmente útil a explicação sobre a estrutura da Igreja, a missão do Papa e a diferença entre os vários níveis da sua organização.
A sessão terminou com um período de perguntas e respostas, no qual os jornalistas aprofundaram dúvidas sobre:
- o papel das madres e congregações;
- a estrutura da Igreja desde a Santa Sé até à paróquia;
- a diferença entre bispos, arcebispos e cardeais;
- a natureza pastoral e institucional da Igreja Católica.
A formação prossegue como parte da preparação dos profissionais da comunicação social para a cobertura da visita apostólica de Sua Santidade o Papa Leão XIV a Angola.
O Padre Augusto Malengue é sacerdote do clero diocesano da Arquidiocese de Luanda, com 17 anos de ministério sacerdotal.
Ao longo do seu percurso, desempenhou funções como secretário do Bispo Auxiliar de Luanda, pároco da Paróquia de São Francisco Xavier e prefeito de disciplina do Seminário Maior de Luanda.
É professor no Seminário Maior de Luanda desde 2009 e actualmente exerce funções como Director do Instituto Superior Filosófico-Teológico da Arquidiocese de Luanda.

